A vida é por vezes surpreendentemente injusta para com quem tem mérito... Basta andar relativamente atento para deparar com casos como aquele de que vai tratar a nossa crónica de hoje, estimado leitor. Estão sempre a passar-se, com toda a espécie de gente, de toda o género de profissões, idades, etc. Em boa verdade, creio que basta dar um pontapé numa pedra para de lá de baixo saírem casos desses às dúzias... é que à dúzia é mais barato...
Estava eu no Hospital do Divino quando dei de caras com um velho conhecido, o Manuel Ferreira.
O Manel, que também era na altura conhecido por Manel Corisco, é o autor (mas não o intérprete) do celebrado – e apreciado – tema “Ilhas de Bruma”: Por isso é que eu sou das Ilhas de Bruma Onde as gaivotas vão beijar a terra...
Tema de todos mais que conhecido, ilustração sonora e musical dos Açores, inclusivamente, se não estou em erro, música (de fundo e não só?) de telenovela, documentários, executada à exaustão a propósito de tudo e de nada o que diga respeito à nossa terra; que ficou dessa forma conhecida, até fora da região, onde muitas vezes é designada pelo título da canção...
Faz parte esse tema do álbum editado pela Disrego (passe a publicidade) em 1992, intitulado Sete Anos de Música. Um dos bons discos de música nativa de todos os tempos...
Como eu ia dizendo, encontrei o meu velho conhecido - basicamente igual ao que era, aparentemente – nos corredores do Hospital do Divino, onde mensalmente acor- ro para testes de rotina relacionados com a doença que me acometeu já vai lá para mais de uma década. O Manel também padece de males graves do fígado, uma virose algo embaraçosa, uma vez que pode degenerar em cirrose hepática, muito comum naqueles que têm a desdita de beber demais. O caso dele não é esse, mas a minha primeira reacção foi tentar saber se ele tinha andado a abusar da bebida. Que não, que nada tinha a ver com isso. Obrigava-o era a uma certa rotina hospitalar, daquelas que provavelmente tantas vezes terá executado em benefício de terceiros, ele que era também funcionário do Hospital de Ponta Delgada, mas no antigo.
O certo é que não me pareceu que andasse particularmente bem abonado, nem que tivesse assim muita companhia, uma vez que enfrentava sozinho um dia de rotina hospitalar, o que eventualmente pode ser bem aborrecido. Em favor da sua qualidade de vida...
Fiquei a meditando sobre as injustiças da vida, com as quais iniciei a crónica (aliás, até a titula)...
O Manuel Ferreira tem o mérito de ter composto essa canção de todos conhecida (ouvi-o cantá-la inúmeras vezes há coisa de uns 20 anos) e não ter ganho nadinha com isso... Enquanto outros, com incomparavelmente menos méritos, não estão mal de vida. Injustiças...